AMIGOS MURALISTAS = APESAR DE MUITOS CONSIDERAREM COMO ENCERRADO O EPISÓDIO ENTRE MARCOS E LUXEMBURGO, TRANSCREVO ABAIXO A REPORTAGEM DA REVISTA CARTA--CAPITAL........VALE À PENA LER E CADA UM TIRAR SUAS CONCLUSÕES.........
Nuvens carregadas no centro de treinamento do Palmeiras, na Barra Funda. É terça-feira 11, e o elenco se reapresenta. Há dois dias, o time perdera um jogo crucial na reta final do Campeonato Brasileiro, em casa, para o Grêmio. Com o título mais distante, desesperou-se. Se não todos, ao menos um homem. Aos 29 minutos do segundo tempo, o goleiro Marcos subiu ao ataque, tentando cabecear. Ofegante, ensandecido, ignorava os gritos do treinador, Vanderlei Luxemburgo, à beira do campo. A torcida gostou do que viu. Luxemburgo odiou. Microfones captaram o áudio: “Diz praquele p* não atacar mais!” Não adiantou. O goleiro foi à área adversária quatro vezes. E piorou uma crise que se anunciava.
Duas semanas antes, dia 25 de outubro, após a vexatória derrota (3 a 0) para o Fluminense, no Maracanã, ao deixar o campo Marcos criticara a instabilidade da equipe: “Talvez um psicólogo consiga explicar essa postura”. Luxemburgo não gostou da crítica pública e avisou, em público: “É a última vez que ele fala isso comigo aqui. Como capitão ele tem que ter equilíbrio e foi inoportuno”.
A situação piorou quando o treinador citou como “atitude de capitão” o comportamento do goleiro adversário, Rogério Ceni, que viajou com o time do São Paulo a Ipatinga, sem jogar, apenas para acompanhar a equipe.
Detalhe: o treinador não apenas não viajou com a equipe (de reservas) enviada à Argentina para enfrentar o Argentinos Juniors pela desprestigiada Copa Sul-Americana, como apareceu de comentarista de luxo da partida na Rede Globo.
As diferentes atitudes e personalidades saltam aos olhos. Apontados para direções opostas, Marcos e Luxemburgo são excessivos, obstinados. Ainda que involuntariamente, personificam modos diferentes de encarar a vida e, principalmente, o futebol.
De volta à Barra Funda. “Está um p* racha aqui dentro”, ecoa nas instalações alviverdes. Nuvens carregadas. Um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas aponta as lentes para o local de onde Luxemburgo poderá aparecer. Esperariam por quase três horas, em vão.
Após o treino dos atletas, que consistiu em corrida e uso de aparelhos de musculação, a movimentação na sala de imprensa indica que o goleiro dará entrevista. Quarenta e seis repórteres, fotógrafos e cinegrafistas preenchem o local. Marcos chega, quase escoltado. Curvado, olhar de cachorro perdido na mudança.
Senta-se, imenso e pequenino, e fala. “Olhando o que fiz, vi que foi ridículo.” “Podem julgar minha atitude, mas não minha intenção.” “Achei que faltavam sete minutos. Para mim, eu estava abafando”, explica-se, com uma naturalidade que parece a de um papo entre velhos amigos. Mas a impressão vai embora com a presença de dois grandalhões, de braços cruzados e cara fechada, ao lado do goleiro. “Não conversei com o Vanderlei ainda. Ele tem todo o direito de ficar bravo e de me punir”, prossegue Marcos.
Uma repórter quer saber por que o goleiro veio à imprensa sem ter conversado com o técnico. Marcos ia abrindo a boca quando Helder Bertazzi, um dos grandalhões, o corta e ergue a voz: “A assessoria achou bom. Qual o problema?” A jornalista insiste e o goleiro resume o jogo: “Aqui, eu sou comandado”.
Ele ouve as perguntas com os ombrões caídos, rugas acima dos olhos e a mesma expressão da chegada. Mantém as mãos abaixo do tampo da mesa e os pés apoiados na cadeira. Menospreza-se. “Se preciso de psicóloga? Talvez psiquiatra.” “Minha autenticidade, dentro do futebol, mais atrapalhou que ajudou.” “Estou publicamente pedindo desculpas.” “Jamais dividiria o grupo.”
Ao final da coletiva de Marcos, o dirigente Gilberto Cipullo apresenta-se para, oficialmente, negar rumores de insatisfação com o trabalho de Luxemburgo e garantir que o treinador segue no grupo até 2009. Que não existe nem nunca existiu crise.
Hoje atuando como goleiro da Portuguesa, o veterano Sérgio passou 12 anos no Parque Antarctica. Dividiu quarto, concentração e até hospedou Marcos em sua casa: “Temos uma amizade de irmão, fora do normal”. No fatídico domingo, mal acreditava no que via na tevê. “O que está acontecendo? Ele está xarope?”, perguntava-se. “Tive a nítida impressão de que ele deve ter sentido culpa no gol que tomou e quis tentar fazer alguma coisa”, diz, e pondera que, para um goleiro, às vezes é difícil saber o tempo de jogo.
O ex-companheiro de equipe arrisca uma análise do futebol atual e da raiz da crise alviverde. “Hoje, o futebol virou um negócio, não se vê mais amor à camisa e poucos têm a marca de um clube como o Marcos. Ele tem força no grupo, tudo o que fala repercute. E o Vanderlei nunca gostou de perder o comando”, diz. A inconfessável disputa pela liderança também é apontada pela psicóloga Kátia Rubio, especializada em esporte. Ela discorda das explicações do goleiro. “Não vejo uma reação ridícula, vejo uma reação emocional de um sujeito que tem clareza de que é o líder desse grupo. Marcos se entregou ao papel que lhe competia como líder, embora isso seja inadmissível para muitos técnicos, caso do próprio Luxemburgo.”
E chega a hora dele. Não na terça-feira, mas no dia seguinte, em que seria o único a falar com a imprensa. No céu, nuvens mais carregadas que no dia anterior. Antes do fim do treino, o técnico adentra a sala de imprensa. Trata os repórteres pelo nome e sorri especialmente para o da Rede Globo. Os mesmos grandalhões o acompanham, mas dessa vez são todo-sorrisos. Solícitos, quase doces. Luxemburgo senta-se, ergue o peito e apóia os braços sobre a mesa. Assopra no microfone para chamar mais atenção. “Espero que ele tenha aprendido que tudo o que faz tem um peso”, diz, e passa a criticar a imprensa. “Deitam e rolam com a ingenuidade do Marcos.” Em seguida, declara ter feito dois cursos de Media Trainning para passar “por isso”. A partir daí, desqualifica e desconstrói a maior parte das perguntas. Ou vangloria-se: “Eu amadureci, deixei-o vir procurar vocês antes.” “Eu tive a sensibilidade e a maturidade de dizer que resolveria internamente.” Fala e gesticula muito.
Começa uma forte chuva. Escurece o céu da Barra Funda. Um repórter quer saber por que não chegou até Marcos a ordem para não sair do gol. “Não chegou porque não chegou.” Quase sem paciência: “Foi um fato isolado. Sempre chegou, vai chegar”. Questionado se está havendo um esforço para mostrar que está tudo bem no grupo, o treinador deixa de lado a propalada maturidade. “Esforço? Que esforço? Vocês é que estão tratando como um racha, mas não vão conseguir, não! Estou bem calejado nisso. Não vão me derrubar!”, exalta-se, dedo em riste. Em seguida, bate na mesa, plum!: “Acabou, não quero mais falar”, decreta, antes de começar a rir. Sozinho. É a primeira das três piadinhas que faz. Ri em todas, sozinho.
Ainda aproveita para se dizer perseguido pela imprensa. “Todo mundo me condenou porque fui comentar na Globo, fizeram disso uma coisa absurda”, antes de comemorar o fim da coletiva. “Acabou, tira essa merda daqui”, e afasta um gravador, rindo, sozinho, novamente.
No dia anterior, Marcos disse que “deixou de ser só profissional” quando preferiu a Série B com o Palmeiras à proposta do Arsenal. “O Marcos se equivocou. Daqui a dez anos, se ele estiver pedindo um jogo beneficente, todos vão dizer que devia ter aceitado ir para a Europa ganhar 45 milhões. Se eu estivesse aqui, teria dito: vai à luta, vai botar dinheiro para dentro, porque são 12, 13 anos e acabou”, expõe Luxemburgo. E profetiza: “O Marcos ficou no Palmeiras, isso ninguém discute, tanto que ele é o São-Marcos-do-Palmeiras. Mas e daqui 20 anos, se estiver meio quebrado, como será lembrado?”
Passou a chuva. Só o tempo vai dizer.

